Aromas e lembranças


Como os aromas nos remetem a lembranças. Isso é involuntário e uma característica da raça humana. 
Quantas lembranças boas atrelamos a cheiros de épocas da nossa vida? Ou ao contrário, quantos aromas nos trazem lembranças de períodos que por vezes queremos esquecer, deletar. 

Passando por uma casa simples de uma rua qualquer, senti o cheiro do shampoo que usei por anos da minha infância e juventude. Notei, com saudades, como era bom àquela época, e como mudamos constantemente a ponto de perder delícias tão simples da vida. Como tomar um banho com shampoo de frutas num dia de verão, comer picolé artesanal comprado na casa da vizinha, ver o dia passar devagar numa rede na varanda da sua vó. 

Hoje em dia, depois da maturidade, nada disso mais nos é viável. Veja só como nos tornamos tristes por excluir aos poucos coisas simples e baratas que nos relaxam e nos fazem desopilar dos problemas diários. 

Quando se é criança, sempre ouvimos que a infância é a melhor época da vida, e depois de adulto, que fuzilante verdade. Nos damos conta de várias responsabilidades, chegando em forma de cascata e nada mais é tão descomplicado e despretensioso como antes. Até para relaxar é preciso marcar hora, agendar o dia em que irá se fazer 'nada'. 

Quantas angustias não deixamos do lado de fora da porta, que existência estamos construindo. Que aromas estamos agregando valor no nosso imaginário? Como é complicado crescer. Tudo demanda esforço, persistência. Até para não enlouquecer com a rotina. Talvez seja o ponto crucial do amadurecimento; equilibrar o ônus ao bônus de cada fase. 

11/2019

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